terça-feira, 11 de maio de 2010

Revelar os corações

por JOÃO CÉSAR DAS NEVES
Imagine uma pessoa que assiste a um jogo de futebol sem conseguir ver a bola. Suponha que um seu amigo o acompanha ao estádio mas, sofrendo de uma estranha forma de daltonismo, não vislumbra a pequena esfera de couro que prende a atenção de toda a gente. É normal que essa pessoa fique perplexa sobre o estranho comportamento, não apenas do grupinho que rodopia no relvado, mas também da multidão que aplaude e vibra sem razão aparente.

Esta é a situação de grande parte dos debates, públicos e privados, sobre a próxima vinda do Papa. Muitos exaltam a grandeza intelectual de Bento XVI, enquanto outros abominam o seu dogmatismo ou ridicularizam a pose. Mas quase todos, seguidores ou adversários, passam ao lado do elemento central, da única coisa que, de facto, tem algum interesse neste homem e que, mesmo inconscientemente, focaliza a atenção geral.

O motivo porque multidões seguem aquele senhor idoso e frágil não é ele ser muito inteligente e espiritual, pois há vários tão ou mais geniais que ele. A causa de tanta animosidade e raiva contra o alemão de branco não pode vir da sua falta de fotogenia ou teorias estranhas, algo hoje tão comum. A razão porque uns o seguem e outros o atacam é a mesma porque admiraram e contestaram os seus antecessores, tão diferentes dele, e um dia considerarão os sucessores, quem quer que sejam.

Quem vamos receber amanhã na nossa terra não é Joseph Ratzinger, nem sequer Bento XVI. Quem vem aí é o Papa, o 265.º sucessor de S. Pedro. E qual é o interesse da sucessão do pescador galileu? É que aquela pessoa frágil, sorridente e tímida, tão fascinante para uns e irritante para outros, é o 265.º vigário de Cristo na Terra. Sobre ele se projectam apenas as emoções que há 2000 anos suscita Jesus de Nazaré.

Neste tempo pedante os intelectuais fazem um enorme esforço para contornar isto. É curioso ler as notícias e opiniões sobre o Papa porque, na grande maioria, começam à cabeça por eliminar da equação o elemento central. Tiram Deus do panorama, dizendo obter assim uma perspectiva objectiva e equilibrada. Não percebem que deste modo repetem o erro dos que vissem futebol sem ter em conta a bola. Omitindo Cristo, tudo no Papa pura e simplesmente deixa de fazer sentido. Sem Jesus nada na Igreja tem interesse, valor, lógica. Não admira assim que tantos julguem os cristãos loucos, como aquele pobre espectador acharia lunáticos os que correm com tanto afã só para chegar à rede entre os postes.

Apesar da cegueira de comentadores, livros de divulgação e até tratados científicos, as reacções concretas mostram bem como, para ambos os lados da questão, Deus é o único assunto verdadeiramente em causa. Por isso é que não nos devemos espantar por tantos admirarem e aclamarem Bento XVI, sem sequer entenderem bem os contornos da sua teologia; tal como não temos de nos escandalizar por tantos o repudiarem e criticarem sem sequer se darem ao trabalho de conhecer as suas posições. O que interessa naquele homem, nos gestos como nas decisões, nos seus livros como nas homilias, é a pessoa de Cristo que ele, na sua pequenez e limitação, recebeu o mandato de representar. É perante Cristo, não Joseph ou Bento, que as pessoas realmente reagem, bem ou mal. E Jesus sempre suscitou emoções fortes e contraditórias, nem sempre ponderadas.

Claro que todos devíamos ter espírito sereno, aberto e dialogante, quer para considerar o que o Papa diz quer para ouvir as críticas que tantos lhe dirigem. Aliás, ninguém como Ratzinger acolheu e acolhe, com seriedade e perspicácia, as múltiplas opiniões dos adversários da fé, que há quase 30 anos tem a função suprema de defender. Mas, mesmo praticando respeito, compreensão e tolerância para com todos, é incontornável que Jesus é "sinal de contradição" (Lc 2, 34). Desde a apresentação no Templo que sabemos que perante Ele "se hão-de revelar os pensamentos de muitos corações" (Lc 2, 35). Não há dúvida que em Portugal, nos últimos e próximos dias, se estão a revelar os contornos íntimos de muitos corações.

naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

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